Shakespeare: Ai
de mim! Escolhestes Troilo e Cressida, entre toda minha obra? Porquê, eu digo.
Não escutai os rumores? Percorrem todo o reino através do vento congelante da
madrugada. É uma peça problema, ninguém se atreve a montá-la. Dizem que tem uma grande maldição por de trás...

HISTÓRIA
por Rafael Antonio Blanco
Shakespeare deve ter tido alguns relativos fracassos no teatro, assim como enormes sucessos. Tróilo e Créssida parece ter sido um relativo fracasso, ao menos no palco, em sua forma original. É questionável se ela chegou a ser produzida. É uma peça amarga sobre uma guerra inconclusiva e um caso de amor frustrado, muito distinta de qualquer coisa que Shakespeare havia escrito antes em suas comédias e nas peças históricas Inglesas. Sua sombria sátira de impasse político parece direcionada, em parte, à história infeliz da rebelião malograda do Conde de Essex em 1601; como muitos dos guerreiros em Tróilo e Créssida, Essex foi um herói manchado, o qual o carisma foi vítima de suas próprias ambições ego maníacas e do humor de ansiosa impotência que pairava sobre os últimos anos da Rainha Elizabeth. A peça é anormalmente elíptica em sua linguagem, como se Shakespeare deliberadamente adotasse um novo e contorcido estilo para expressar os paradoxos do caos político e psicológico que gostaria de descrever. Um importante tópico da peça é a fama, ou antes a notoriedade, pois a maioria dos principais personagens de Shakespeare vêm a ele na história com amadurecida identidade de anti-heróis: Créssida, a mulher infiel; Tróilo, o homem rejeitado; Pândaro, o alcoviteiro; e Aquiles, o assassino de Heitor. A linguagem de Shakespeare tem que lidar com identidades despedaçadas, com a subjetividade instável da teimosia humana, e com a exaustão espiritual e a neurose. Talvez alguns membros da audiência de Shakespeare não estavam preparados para tudo isso.
Hoje, pelo contrário, a peça goza de autoestima crítica e se mostra teatralmente poderosa. O que percebemos é que a argúcia sagaz, sua representação satírica da guerra e seu retrato desalentador da infidelidade sexual pede uma resposta muito diferente daquela requerida pela apreciação de Sonho de uma Noite de Verão e Como Gostais ou 1 Henrique IV. Tróilo e Créssida, escrita provavelmente no final de 1601, pouco antes da entrada no Registro Stationers em 1603, está afinada com o novo e mais sombrio humor emergente durante esse período da obra de Shakespeare, e da obra de seus contemporâneos.
No início dos anos 1600, a sátira dramática gozava de uma notoriedade altamente visível e repentina. Servindo, em larga parte, às audiências seletas e cortesãs, e graças a um novo ímpeto pela reabertura das companhias dos garotos atores nos teatros internos em 1599, o drama satírico rapidamente empregou o talento de Ben Jonson, John Marston e George Chapman, assim como outros dramaturgos sofisticados. Jonson lançou uma série de peças que chamou de sátiras cômicas, nas quais ele repreendia os cidadãos londrinos e presumidamente ensinava boa conduta para a corte também. A chamada Guerra dos Teatros entre Jonson, Marston e Thomas Dekker, apesar de parcialmente um conflito pessoal sem consequências, foi também um sério debate entre os palcos públicos e os mais cortesãos e seletos sobre o uso correto da sátira. Os dramaturgos públicos se queixavam da ousadia difamatória da nova sátira e eram irritados pela preferência de algumas audiências por esse novo fenômeno teatral; mesmo Shakespeare inquieta-se em Hamlet (2.2.353-79), sobre a rivalidade. Entretanto, como um artista em busca por novas formas, ele também respondeu com interesse positivo. Experimentou com um tipo de roteiro satírico jonsoniano a exposição de Malvólio em Noite de Reis (1600-1602). Tróilo e Créssida parece ter sido outro experimento mais ambicioso, compreendendo um tipo diferente de sátira, não de exibição arguciosa, mas de desilusão.
LEITURA DRAMÁTICA
Vamos estudar, e sem gaguejar heim!
Assista um pouco do MÃOS A OBRA
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